Eu vou ficar louca. Sim, eu vou. Não, eu não posso ficar louca. Mas o que eu vou fazer? Vou acabar explodindo, meu Deus do céu! Já sei! Vou naqueles doutores em que a gente deita no tal sofazinho e conta todos os problemas pra ele, sabe? É, é isso. E eu fui. Eu fui no tal doutor. Marquei a minha consulta e cheguei lá com alguns minutinhos de antecedência e não esperei muito pra que fosse chamada pra entrar na sala. Entrei e não tinha nenhum daqueles sofás que eu tinha imaginado que ia deitar, já queria ir embora dali na hora, onde já se viu enganar as pessoas daquele jeito? O doutor resolveu se sentar na cadeira do meu lado e pediu que eu me virasse de frente pra ele. Ê, doutor, não venha querendo me cantar, eu tenho idade pra ser sua neta, cê sabe disso, né?
— Pois bem, filha — ufa, ele sabe —, diga-me o porque está aqui.
— Eu vou explodir, doutor!
— Por que acha isso?
— O senhor devia saber.
— Eu sou médico, minha querida, não vidente — esqueceu do grosso.
— Mas não é só sobre isso que o senhor trata?
— Está apaixonada? — abaixei a cabeça. — Não precisaria nem ser vidente pra saber que era isso. Me conte exatamente o que anda sentindo para pensar que pode explodir.
— Doutor, esse sentimento tá crescendo aqui dentro eu sinto como se não fosse mais caber dentro de mim, sabe? Já transbordou do meu coração porque nem nele mais tá cabendo às vezes eu fico até sufocada entende doutor eu não sei como ainda não explodi porque é tudo muito grande e muito intenso eu tô começando até a falar o nome dele sem perceber chamar as outras pessoas pelo nome dele e se isso não é amor pode ser loucura mas é amor doutor eu sei que é amor.
— Filha, calma, respira fundo — foi então que eu me dei conta de que tinha soltado as palavras tudo como uma metralhadora. Fechei os olhos e respirei fundo. — Mais calma? — assenti. — Certo, então agora me fale o que você sente quando está falando com ele.
— Ah, doutor — suspirei — é a melhor parte do meu dia. Todas as vezes em que nos falamos, seja ele me mandando uma mensagem agora e outra daqui duas horas, é como se tivesse um interruptor aqui dentro de mim que ligasse e um sorriso instantâneo vem ao meu rosto, sabe? É doentio isso? Porque se eu pudesse, eu falaria as vinte e quatro horas do dia com ele e se possível, inventaria até mais uma ou duas só pra poder estender a nossa conversa.
— E quando vocês não se falam, o que você sente?
— Saudade.
O doutor ficou mudo por alguns segundos e vendo que eu já tinha respondido, ele continuou.
— Nada mais? — balancei a cabeça negativamente. — Ne…
— Na verdade, fico ansiosa pelo momento em que ele vai me responder de novo — o interrompi. Ele anotou algumas coisas. — Doutor, eu tô doente?
— O que você sente quando o vê ou ouve a voz dele?
— É a melhor sensação do mundo. É como se não existisse mais nada, sabe, doutor? É como se só existisse ele ali no momento pra mim, eu preciso me esforçar muito pra lembrar que ainda existe uma realidade que não seja apenas nós dois. Tentando exemplificar, é como se nós estivéssemos dentro de uma bolha ou no nosso mundinho onde ninguém mais pudesse existir ou nos atrapalhar. Doutor, eu tô dependente dele?
— Algo mudou em você depois de conhecê-lo?
— Tantas coisas, doutor… Ele me transformou em alguém melhor, sabe? Ele vive dizendo que não foi ele quem me transformou, que eu sempre fui assim e etc, mas não, doutor, eu não era assim, nunca fui! Com ele eu sou uma pessoa contente, um pouco mais confiante em mim mesma, não acordo mais de mau humor — o doutor soltou uma risadinha —, até minha auto estima aumentou! E eu nunca tive nenhum pinguinho dela. Ele me transforma numa pessoa melhor, doutor. E ele fala tanto que eu sou linda… Fala tanto que algum dia eu acho que eu vou acabar acreditando que eu sou.
— O que você mais gosta nele?
— Tudo — respondi rapidamente.
— Seja mais detalhada, filha.
— Bom — pensei por um momento. — Não há só uma coisa que eu goste nele. Eu gosto de tantas. Como por exemplo, quando eu tô com dor e ele dá um jeito de me fazer rir só pra eu esqueça da dor. Ou então quando ele começa a fazer palhaçada só pra me fazer rir e diz que meu sorriso é o sorriso mais lindo que ele já viu na vida. Eu gosto do jeito que ele é brincalhão, engraçado, divertido, eu gosto do modo com o qual ele me faz rir. Eu gosto do modo com o qual ele diz que me ama e gosto quando ele diz isso quando eu não tô esperando. Eu amo quando ele se declara pra mim, eu fico sorrindo igual uma idiota por uns cinco minutos consecutivos sem parar. Mas doutor, nada se compara a aquele sorriso dele, sabe? Só de lembrar já me dá vontade de sorrir… É só ele começar a erguer aqueles cantinhos daquela boca linda, formando aquela curvinha e deixando aqueles dentes à mostra pro meu mundo cair aos pés dele. Aquele sorriso… Ah, aquele sorriso. Eu poderia facilmente assinar qualquer papel dando toda minha fortuna pra qualquer se ele só pedisse isso sorrindo pra mim. Isso é, se eu fosse rica.
— Entendo.
— Doutor, por que o senhor não me responde minhas perguntas?
— Já ficou sem ele alguma vez? — ô seu velho.
— Já. E não foi nenhum pouco bom. Ou legal. Ou divertido. Nunca. Nunquinha. Nenhuma das vezes.
— O que foi? Por que os olhos marejados?
— Porque só de lembrar a época em que eu fiquei sem ele, me dói, doutor. Eu não quero passar por aquilo nunca na minha vida de novo, meu Deus, como aquilo doeu!
— E se você tivesse que ficar sem ele de novo? Como seria?
— Não vou ficar.
— Se tivesse que ficar, criança.
— Se tivesse, se visse que não tinha mais jeito mesmo de volta ou de nós dois termos um recomeço, eu teria que seguir minha vida, né? Se fosse melhor pra ele seguir a vida dele sem mim, o que eu poderia fazer?
— Você abriria mão dele?
— Não. Porque eu sou egoísta. Mas se ele chegasse em mim e dissesse que não queria mais, que acabou e sem mais volta, ou que não me ama, que cansou de mim, o que eu poderia mais fazer? Ainda assim, tentaria, mas… Não gosto nem de imaginar, doutor, já dá até uma faltinha de ar.
— O deixaria ser feliz com outra pessoa se ela fosse a felicidade dele?
— Não. Eu o convidaria pra ser infeliz comigo.
— Por que?
— Essas coisas só acontecem em filmes, doutor. Eu não vou deixar a pessoa que eu amo ser feliz com outra se eu sei que ele ainda me ama.
— Então, por q…
— Dá pra mudar o tópico? Porque eu não quero ficar falando em perder o amor da minha vida.
— Ele é?
— É.
— Tem certeza?
— Tenho. Como dois mais dois são quatro. Como o nascer do sol. Como ter que respirar pra viver. Como ter que beber água e se alimentar pra sobreviver.
— Você o ama?
— Não está meio óbvio aqui, doutor?
— Você o ama?
— Com todo meu coração.
— Só com ele?
— Com todo meu ser.
— Mais algo?
— Com toda minha alma e com o que de mais puro eu tenho no meu interior.
— Me fale um pouco sobre ele.
— Ele é chato. Muito. E gordo. Na verdade, gordinho. Na verdade, ele é gostoso pra caralho, mas ele é meu gordinho. Ele tem o sorriso mais lindo do mundo e a voz mais gostosa de escutar, principalmente quando acaba de acordar ou quando está cantando pra mim. Ele toca muito bem. Vários instrumentos. Doutor, ele é demais pra mim.
— Se acha que é demais pra você, por que acha que ele te escolheu?
— Queria saber. Ele diz que eu sou demais pra ele, que ele não é bom o suficiente pra mim, mas não é assim, doutor. Ele tem tantas qualidades e eu tantos defeitos e quando me olho no espelho, fico tentando entender o que ele viu em mim. Tão lindo e eu tão… normal. Ele tem tantas garotas aos pés dele, aposto que uma mais bonita que a outra e ainda assim ele prefere a mim. Eu espero que ele continue vendo o que ele viu em mim pra sempre, porque… Eu não quero perdê-lo. Me apavora só a ideia.
— Você sabe se essa ideia o apavora também?
— De me perder? — ele assentiu. — Ele diz que sim. Ele diz que não quer mais reaprender a viver sem mim. Doutor, me fala o que eu tenho!
— O que ele representa pra você?
— Hoje? Meu tesouro. Minha preciosidade. Meu coração.
— Você acha que ele poderia arrumar alguém melhor que você?
— Com certeza ele pode, doutor. Ele merece. Só que nenhuma delas, por melhor que elas sejam, vão amá-lo do jeito que eu amo, vão saber cuidar dele do jeito que eu cuido, vão saber mimá-lo do jeito que eu mimo, vão ir atrás dele do jeito que eu vou quando ele está com um bico do tamanho do monte everest, vão conhecê-lo tão bem como eu conheço, vão saber amá-lo do jeito que eu o amo.
— Muito bem.
— Doutor…
— Você não tem doença, você apenas está apaixonada. E muito apaixonada.
— Mas doutor, e o negócio de sufocar? Eu às vezes não consigo respirar não consigo eu simplesmente sinto como se fosse explodir de tanto amor porque ele não tá cabendo mais dentro de mim será que tem como eu colocar um pouco desse amor em uns potinhos e entregar pra ele porque eu não sei eu não tô…
— Não esqueça de respirar! — respirei. — Você quer entregar a ele esse amor? Ame-o, criança, apenas ame-o.
— Mais doutor?
— Sim. Mais, mais, mais. Ninguém nunca morreu de amor e nem nunca morrerá.
— E se ele enjoar?
— Se ele te amar do jeito que você diz que ele te ama, ele não enjoa. Porque cada vez que somos mais mais e mais amados, a tendência é o amor aumentar junto. Quanto mais carinho recebo, mais carinho eu dou. O mesmo com o amor, entendeu?
— Então posso amá-lo sem medo?
— Sim.
— Não vou explodir? — o doutor soltou uma risada alta.
— Não, criança.
— Obrigada, doutor! — fui até ele e o abracei. Ele se assustou de início, mas me abraçou também.
De amor ninguém nunca morreu, é. Se esse amor continuar crescendo do jeito que está… Ah, meu amor, você que me aguarde, porque terá que me aguentar pelo resto da sua vida! E vai. Vamos ficar juntos. Juntinhos. Até velhinhos, pro resto da vida, porque não existe pessoa mais certa e melhor pra mim, do que você.
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