domingo, 26 de outubro de 2014

Ocupado por tempo indeterminado...

Logo agora que as coisas estavam se ajeitando. Logo agora que eu já tinha passado a vassoura e estava voltando com os baldes e panos para terminar a faxina da bagunça que o último inquilino havia feito, me aparece outro. Eu tinha certeza absoluta de que não entregaria a chave para mais ninguém e que ficaria apenas comigo, apenas eu cuidaria e ninguém mais ao menos tentaria tomar posse desse lugar, para que num futuro bem próximo, eu não precisasse limpar novamente sozinha toda a bagunça que ficaria. Mas então, me aparece um desconhecido que eu poderia ter trombado em uma calçada qualquer, um bar qualquer, uma loja qualquer e se oferece pra ajudar na limpeza. Eu, prontamente recuso, porque já basta de pessoas querendo ajudar e acabar bagunçando mais ainda. Mas não adianta. Você continua insistindo e eu lhe entrego um pedaço minúsculo de pano para que possa, talvez, não conseguir limpar nada com aquilo. Mas por alguma maneira, você é persistente e consegue deixar brilhando uma parte, que eu não havia conseguido, mesmo após passar produtos e produtos. Após isso, ganha pontos comigo. Talvez você realmente consiga me ajudar a organizar essa bagunça, e nada mais. “Nada de entregar as chaves”, me lembro. Não, isso não acontecerá. Certo, mais um pedaço de pano... Só mais um. Ok, talvez mais dois. Droga, isso não devia estar acontecendo. Eu não conseguia identificar de onde vinha essa luz que estava começando a iluminar o local, até que me viro pra você. Teu sorriso. Por que tem que ser tão lindo? Sem empolgação. Enquanto você pula para outra parte do local, vou pintar a placa de “entrada proibida” a não ser que seja convidado, o que acho que será raro de acontecer. Ei, não pode colocar sua jaqueta aí em cima não. Sem acomodações, por favor. Qual cor eu deveria pintar? Preta ou alguma cor vibrante para enxergarem de longe? Te pergunto e você diz que se eu quero que ninguém chegue perto, uma cor vibrante seria boa. Escolho amarelo. Cor predominante do meu signo, talvez até resolva alguma coisa. Pensar mais em mim e deixar um pouco os outros de lado. Droga, tire seus sapatos daí! Não, não, nada de sentar pra descansar! Se quer descansar, procure teu próprio cômodo, mas não aqui dentro. Certo, a placa está pronta e só falta arrumar onde colocar. Você, como uma ótima pessoa, se oferece para colocar em determinado local, o que eu acho ótimo, pois fica bem visível para qualquer um ver, ainda mais naquelas letras amarelas gigantescas. Usei a minha melhor caligrafia para não perceberem o meu desespero em praticamente gritar para que não ousem ao menos chegar perto. E então eu olho para o lado e lá está você, sem jaqueta e sapatos, como se fosse da casa. Grito com você para que os coloque novamente e não pense que já é de casa, mas você me dá um sorriso tão lindo, dizendo que já sabe disso e que só está à vontade porque está me ajudando com a faxina, e que logo mais pega o que é seu e some. Acho justo. Certo, só por esse motivo então você pode deixar suas coisas do jeito que estão. Aliás, pegue-as e as organize. Coloque pelo menos em cima de algum lugar, não as deixe jogadas no chão. Merda, aqui vou eu de novo me preocupando com algo de outra pessoa. Retiro o que disse e que se dane suas coisas. Assim como que se dane você. Você então se vira pra mim e diz que não preciso agir dessa forma, mas o que posso fazer se isso virou meu mecanismo de proteção? Sempre que sinto que alguém vai querer algo demais, quase que involuntariamente minha pele se transforma numa casca e se duvidar solta até espinhos para afastá-los? Você diz que eu não preciso ser assim e que as pessoas iriam tentar apenas aquilo que eu permitisse que tentassem. E eu me pergunto por que é que você está dizendo essas coisas pra mim. Não dei intimidade, dei? Só porque deixei você me ajudar a organizar essa bagunça, não significa que você pode me dar conselhos ou dizer o que é bom ou não pra mim. Se bem que você tem até razão. Mas me recuso a acreditar. Não, chega. Guarde seus conselhos pra você. E não dê essa risada. Droga de risada gostosa de ouvir. Saio de perto antes que me contagie e dê risada junto com você. Você se vira e continua a limpar e eu dou um jeito de ir para o outro lado da salinha limpar. Mas por que raios eu quero te olhar de novo? Viro um pouco meu olhar e lá está você, olhando pra mim. Não faça isso! Não mexa comigo. Não me balance. Subo em alguma coisa para limpar a parte mais alta e o pano cai da minha mão. Ótimo. Perfeito. Como se fosse algo planejado, não, não é... Não pense que foi. Tão prestativo, você se aproxima e pega pra mim, entregando na minha mão. Mil vezes droga. Isso não está certo. Você não devia ser tão príncipe. Se bem que eu prefiro o lobo mal, então está tudo bem. E do nada você solta que pode ser um lobo mal quando eu quiser. Deu pra ler pensamentos agora? Você ri. Gargalha na verdade e, droga, sou obrigada a morder meu lábio pra não rir junto com você. Se controla. Me controlo. Saia dos meus pensamentos! Além de lê-los, quer dominá-los? Isso não vai terminar bem. A não ser que eu te expulse. Mas eu não serei tão mal-educada a esse ponto. Meus pais me deram bastante educação. Agradeça há eles qualquer dia, se vê-los. E não ouse passar pela sua cabeça que eu quero que fique. “Quer que eu fique aonde?” Eu disse em voz alta? Tapa na testa pra deixar de ser tão idiota e burra. Pareço aquelas menininhas de doze anos quando encontra o garoto pelo qual o coração, de alguma maneira resolveu fazer “tum-tum” mais forte. Concentre-se na limpeza. A faxina. Adeus, bagunça! Você me pergunta se eu não quero me sentar e descansar um pouco e eu digo que não. Não posso descansar enquanto não tirar todo e qualquer resquício de um alguém que passou e só deixou bagunça. Que encontrou tudo na mais perfeita ordem e virou de ponta cabeça. Sente-se se quiser, só não acomode-se. “Do que você realmente tem medo?” Alguém devia te ensinar que isso não é pergunta que se faça há alguém. Mas ok, não sei do que tenho medo. Talvez meu maior medo seja arrumar um quarto com uma cama, guarda-roupa e televisão para alguém que esteja disposto há passar pouco tempo e não a vida toda. Que merda de clichê é esse? Odeio quando o clichê entra na história, mas não dá pra viver sem. Chega de perguntas, você é só um estranho que está fazendo uma boa-ação e logo vai embora, não é? Não responda, apenas confirme com a cabeça. E você, marrento, balança a cabeça negativamente. Era só o que me faltava. Um alguém prestativo, marrento, da risada gostosa e do sorriso lindo. Mas quem dá as ordens aqui sou eu e quero que você... Quero que você... Pare de sorrir! Viro de costas pra evitar contato direto com seus olhos que também sorriem, mas não consigo, viro-me no mesmo instante. Não cante vantagem disso e nem me cante. Aliás, me cante se quiser. Que merda é essa? Foco. Presta atenção, está quase tudo limpo e livre de bagunça causada por outras pessoas e já quer colocar alguém que certamente vai revirar isso tudo de novo? Nada disso. Mas você também não colabora comigo. “O que você quer que eu faça agora?” Não sorria mais pra mim desse jeito, ou não dê risada, ou não me olhe, ou não fale comigo. Vá embora! “Quer mesmo que eu vá?” Não! Fica. “Eu fico.” Não, mas você precisa ir. Não posso me permitir dessa maneira de novo. E não se aproxima, fica longe, o mais longe possível. Mas por que é que você não se afasta e só se aproxima? Afastar, o oposto de se aproximar, faltou nessas aulas? E essa sou eu, me esquivando e procurando outra coisa pra fazer. Sem encontrar. E esse teu sorriso, droga... Só mais um passo, apenas mais um. Tá, pode sentar do meu lado... Mas não abusa! E quando dou por mim, você já está segurando as minhas mãos e fazendo eu gargalhar junto com você. Acho que terei que trocar de placa. Mudar de “entrada proibida” para “ocupado”. Mas ocupado por quanto tempo? “Ocupado por tempo indeterminado” você me responde.

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