Logo agora que as coisas estavam se ajeitando. Logo agora
que eu já tinha passado a vassoura e estava voltando com os baldes e panos para
terminar a faxina da bagunça que o último inquilino havia feito, me aparece
outro. Eu tinha certeza absoluta de que não entregaria a chave para mais
ninguém e que ficaria apenas comigo, apenas eu cuidaria e ninguém mais ao menos
tentaria tomar posse desse lugar, para que num futuro bem próximo, eu não
precisasse limpar novamente sozinha toda a bagunça que ficaria. Mas então, me
aparece um desconhecido que eu poderia ter trombado em uma calçada qualquer, um
bar qualquer, uma loja qualquer e se oferece pra ajudar na limpeza. Eu,
prontamente recuso, porque já basta de pessoas querendo ajudar e acabar
bagunçando mais ainda. Mas não adianta. Você continua insistindo e eu lhe
entrego um pedaço minúsculo de pano para que possa, talvez, não conseguir
limpar nada com aquilo. Mas por alguma maneira, você é persistente e consegue
deixar brilhando uma parte, que eu não havia conseguido, mesmo após passar
produtos e produtos. Após isso, ganha pontos comigo. Talvez você realmente
consiga me ajudar a organizar essa bagunça, e nada mais. “Nada de entregar as
chaves”, me lembro. Não, isso não acontecerá. Certo, mais um pedaço de pano...
Só mais um. Ok, talvez mais dois. Droga, isso não devia estar acontecendo. Eu
não conseguia identificar de onde vinha essa luz que estava começando a
iluminar o local, até que me viro pra você. Teu sorriso. Por que tem que ser
tão lindo? Sem empolgação. Enquanto você pula para outra parte do local, vou
pintar a placa de “entrada proibida” a não ser que seja convidado, o que acho
que será raro de acontecer. Ei, não pode colocar sua jaqueta aí em cima não.
Sem acomodações, por favor. Qual cor eu deveria pintar? Preta ou alguma cor
vibrante para enxergarem de longe? Te pergunto e você diz que se eu quero que
ninguém chegue perto, uma cor vibrante seria boa. Escolho amarelo. Cor
predominante do meu signo, talvez até resolva alguma coisa. Pensar mais em mim
e deixar um pouco os outros de lado. Droga, tire seus sapatos daí! Não, não,
nada de sentar pra descansar! Se quer descansar, procure teu próprio cômodo,
mas não aqui dentro. Certo, a placa está pronta e só falta arrumar onde
colocar. Você, como uma ótima pessoa, se oferece para colocar em determinado
local, o que eu acho ótimo, pois fica bem visível para qualquer um ver, ainda
mais naquelas letras amarelas gigantescas. Usei a minha melhor caligrafia para
não perceberem o meu desespero em praticamente gritar para que não ousem ao
menos chegar perto. E então eu olho para o lado e lá está você, sem jaqueta e
sapatos, como se fosse da casa. Grito com você para que os coloque novamente e
não pense que já é de casa, mas você me dá um sorriso tão lindo, dizendo que já
sabe disso e que só está à vontade porque está me ajudando com a faxina, e que
logo mais pega o que é seu e some. Acho justo. Certo, só por esse motivo então
você pode deixar suas coisas do jeito que estão. Aliás, pegue-as e as organize.
Coloque pelo menos em cima de algum lugar, não as deixe jogadas no chão. Merda,
aqui vou eu de novo me preocupando com algo de outra pessoa. Retiro o que disse
e que se dane suas coisas. Assim como que se dane você. Você então se vira pra
mim e diz que não preciso agir dessa forma, mas o que posso fazer se isso virou
meu mecanismo de proteção? Sempre que sinto que alguém vai querer algo demais,
quase que involuntariamente minha pele se transforma numa casca e se duvidar
solta até espinhos para afastá-los? Você diz que eu não preciso ser assim e que
as pessoas iriam tentar apenas aquilo que eu permitisse que tentassem. E eu me
pergunto por que é que você está dizendo essas coisas pra mim. Não dei
intimidade, dei? Só porque deixei você me ajudar a organizar essa bagunça, não
significa que você pode me dar conselhos ou dizer o que é bom ou não pra mim.
Se bem que você tem até razão. Mas me recuso a acreditar. Não, chega. Guarde
seus conselhos pra você. E não dê essa risada. Droga de risada gostosa de
ouvir. Saio de perto antes que me contagie e dê risada junto com você. Você se
vira e continua a limpar e eu dou um jeito de ir para o outro lado da salinha
limpar. Mas por que raios eu quero te olhar de novo? Viro um pouco meu olhar e
lá está você, olhando pra mim. Não faça isso! Não mexa comigo. Não me balance.
Subo em alguma coisa para limpar a parte mais alta e o pano cai da minha mão.
Ótimo. Perfeito. Como se fosse algo planejado, não, não é... Não pense que foi.
Tão prestativo, você se aproxima e pega pra mim, entregando na minha mão. Mil
vezes droga. Isso não está certo. Você não devia ser tão príncipe. Se bem que
eu prefiro o lobo mal, então está tudo bem. E do nada você solta que pode ser
um lobo mal quando eu quiser. Deu pra ler pensamentos agora? Você ri. Gargalha
na verdade e, droga, sou obrigada a morder meu lábio pra não rir junto com
você. Se controla. Me controlo. Saia dos meus pensamentos! Além de lê-los, quer
dominá-los? Isso não vai terminar bem. A não ser que eu te expulse. Mas eu não
serei tão mal-educada a esse ponto. Meus pais me deram bastante educação.
Agradeça há eles qualquer dia, se vê-los. E não ouse passar pela sua cabeça que
eu quero que fique. “Quer que eu fique aonde?” Eu disse em voz alta? Tapa na
testa pra deixar de ser tão idiota e burra. Pareço aquelas menininhas de doze
anos quando encontra o garoto pelo qual o coração, de alguma maneira resolveu
fazer “tum-tum” mais forte. Concentre-se na limpeza. A faxina. Adeus, bagunça!
Você me pergunta se eu não quero me sentar e descansar um pouco e eu digo que
não. Não posso descansar enquanto não tirar todo e qualquer resquício de um
alguém que passou e só deixou bagunça. Que encontrou tudo na mais perfeita
ordem e virou de ponta cabeça. Sente-se se quiser, só não acomode-se. “Do que
você realmente tem medo?” Alguém devia te ensinar que isso não é pergunta que
se faça há alguém. Mas ok, não sei do que tenho medo. Talvez meu maior medo
seja arrumar um quarto com uma cama, guarda-roupa e televisão para alguém que
esteja disposto há passar pouco tempo e não a vida toda. Que merda de clichê é
esse? Odeio quando o clichê entra na história, mas não dá pra viver sem. Chega
de perguntas, você é só um estranho que está fazendo uma boa-ação e logo vai
embora, não é? Não responda, apenas confirme com a cabeça. E você, marrento, balança
a cabeça negativamente. Era só o que me faltava. Um alguém prestativo,
marrento, da risada gostosa e do sorriso lindo. Mas quem dá as ordens aqui sou
eu e quero que você... Quero que você... Pare de sorrir! Viro de costas pra
evitar contato direto com seus olhos que também sorriem, mas não consigo,
viro-me no mesmo instante. Não cante vantagem disso e nem me cante. Aliás, me
cante se quiser. Que merda é essa? Foco. Presta atenção, está quase tudo limpo
e livre de bagunça causada por outras pessoas e já quer colocar alguém que
certamente vai revirar isso tudo de novo? Nada disso. Mas você também não
colabora comigo. “O que você quer que eu faça agora?” Não sorria mais pra mim
desse jeito, ou não dê risada, ou não me olhe, ou não fale comigo. Vá embora! “Quer
mesmo que eu vá?” Não! Fica. “Eu fico.” Não, mas você precisa ir. Não posso me
permitir dessa maneira de novo. E não se aproxima, fica longe, o mais longe
possível. Mas por que é que você não se afasta e só se aproxima? Afastar, o
oposto de se aproximar, faltou nessas aulas? E essa sou eu, me esquivando e
procurando outra coisa pra fazer. Sem encontrar. E esse teu sorriso, droga...
Só mais um passo, apenas mais um. Tá, pode sentar do meu lado... Mas não abusa!
E quando dou por mim, você já está segurando as minhas mãos e fazendo eu
gargalhar junto com você. Acho que terei que trocar de placa. Mudar de “entrada
proibida” para “ocupado”. Mas ocupado por quanto tempo? “Ocupado por tempo
indeterminado” você me responde.
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